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Vamos encarar o sol

Na juventude ouvimos falar na morte e a enxergamos distante, sempre em outros, que usualmente não conhecemos. Estamos cegos pela nossa vitalidade. Na meia idade já sentimos sua presença, às vezes na vizinhança, às vezes na família, mais próxima. Na velhice é nossa companheira, nosso horizonte e em determinados momentos a sentimos tão próxima que dialogamos com ela.

Tão próxima no final da vida, nos acompanha diante de qualquer acidente. Na sociedade é encarada como inimiga, o que só é verdade se ocorre no momento errado, pelos motivos errados e de maneira errada. Obedecendo estas premissas deve ser percebida com naturalidade, não uma fatalidade, mas uma consequência previsível da vida. A morte nada mais é que a vida as avessas.

A morte representa a extinção das atividades vitais e sensoriais. Cessa o crescimento, assimilação e reprodução, sentimentos e pensamento - morrer é cessar, é o irreversível. Se há que defini-la, a morte é quando o nada entra dentro da gente. Um vazio grande impreenchível, com o qual não sabemos lidar. Sempre foi vista como mistério, superstição e fascinação pelo homem. Algumas civilizações a idolatram, outras a abominam.

A vivência da morte como perda passa a representar tabu só na sociedade contemporânea, com forte conotação religiosa, onde suscita muita angústia. Paradoxalmente, nesta época a despedida comovida entre os entes amados, passa a se restringir gradativamente à clausura das UTIs e enfermarias dos hospitais, deixando de estar associada a rituais humanizados e afetivamente mais significativos.

Nós médicos, por ignorância ou insegurança participamos ativamente, às vezes a contragosto da família e do moribundo deste novo costume, o isolamento total do indivíduo neste momento, como antes se fazia com moléstias de notória disseminação. A morte tornou-se uma doença contagiosa, cuja maior consequência é coroar a impotência médica, diante deste desfecho inevitável. Um momento glacial, presenciado ou atestado por estranhos.

Cabe ao médico entender que esta doença maior, cujo prognóstico se define por si só, é um evento natural. Na maioria das vezes cabe ao médico, que o faz com gosto, apartar o paciente da família, sequestrando o lado humanístico do ato de morrer. Tem-se a sensação que a medicina e sociedade atual impõem a morte como uma derrota, constituindo uma declaração maior de impotência diante de um mal, que nos venceu. Esquece-se que esta pode ser transformada em um final digno e ao contrário de prolongar a vida como pensa, abre-se mão do verdadeiro tratamento e maior dogma da medicina, que é o de evitar o sofrimento.

Hoje com inúmeras máquinas (mas não almas) em UTIs, com diversos avanços disponíveis podemos prolongar uma vida artificial por meses. A quem interessa esta conduta?

Transformamos este momento da vida em um momento inóspito, frio, participado apenas por aqueles que nunca conhecemos e portanto não nos guarda qualquer consideração a não ser os deveres do ofício.

"Não se pode olhar de frente nem o Sol nem a morte", afirmou La Rochefoucauld no século XVII. Olhar o sol ofusca a vista; encarar a morte perturba a vida. Mas nos dias atuais cabe a nós médicos e aos membros de uma família encarar esta situação. A participação dos dois lados é fundamental nesta breve jornada, para que uma medida de consenso promova conforto ao paciente. A equipe médica e a família obrigatoriamente têm que concordar.

Vale ressaltar que objetivo médico maior não é o atual (prolongar a vida), mas é afastar o sofrimento do doente, diminuindo a violência de suas consequências e reconhecer os casos muito graves, para os quais a medicina não dispõe de recursos. Não se abster de tratar os doentes graves e terminais para os quais a medicina não dispõe de recursos é demonstrar o caráter desumano dessa prática.

Insistir em tratamentos inúteis, dispendiosos e infrutíferos é faltar com ética, privando na melhor distribuição de recursos, pacientes que apresentam chances de recuperação.

Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre é um aforismo atribuído a Hipócrates e apregoado ainda hoje. Observem que cita-se cura uma única vez, mas aliviar e consolar parece ser o objetivo maior. O apelo ao sentimento piedoso de solidariedade humana como missão adicional ao médico nos faz crer na importância da lógica de não conduzir tratamentos prolongados e inúteis.

Existe um determinado momento na evolução de uma doença que mesmo que se disponha de todos os recursos, o paciente não é mais saudável e está em processo de morte inevitável.

Este conceito refere-se àquele momento em que as medidas terapêuticas não aumentam a sobrevida, mas apenas prolongam o lento processo de morrer. Cabe aqui ao médico livrar-se do conceito de prolongar vida e trocar filosoficamente de lado: impedir que se prolongue a morte.

Na morte tranquila a dor e o sofrimento são minimizados por paliação adequados, nela os pacientes não são abandonados ou negligenciados e os cuidados com aqueles que não vão sobreviver são avaliados tão importantes como os dispensados a quem irá sobreviver. A morte tranquila é mais facilmente conseguida em ambientes tranquilos. As unidades de terapia intensiva, como no passado, devem ser reservadas apenas aos pacientes com potencial de recuperação e não distribuídas para contenção de ansiedade médica.

É tarefa difícil ao médico decidir neste momento, mas temos sido obrigados, graças ao avanço da ciência a fazê-lo. Não nos é dado o direito de virar as costas a esta árdua tarefa, pois temos que fazê-lo.

Nunca nos parece o momento adequado como emprestou os versos de Mário Quintana:

" Esta vida é uma estranha hospedaria, 
De onde se parte quase sempre às tontas, 
Pois nunca as nossas malas estão prontas, 
E a nossa conta nunca está em dia.
 "



"José Dondici Filho 
Cardiologista 
Conselheiro de Administração da Unimed Juiz de Fora

 
 
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